O mercado financeiro digital entrou em uma nova fase.
Para fintechs, instituições de pagamento, empresas de banking as a service, prestadores de tecnologia e demais operações conectadas ao ecossistema financeiro, crescer deixou de ser apenas uma questão de produto, escala e experiência do usuário.
Agora, crescer exige estrutura.
Nos últimos anos, o Banco Central vem elevando o nível de exigência sobre governança, controles internos, gerenciamento de riscos, capital mínimo, segurança operacional e compartilhamento de informações sobre indícios de fraude.
O recado regulatório é claro: inovação financeira não pode operar dissociada de controle.
Ao mesmo tempo, o ambiente de fraude também mudou. O crime organizado migrou parte relevante da sua atuação para o mundo digital. Os ataques ficaram mais rápidos, mais técnicos, mais distribuídos e mais difíceis de rastrear.
Nesse cenário, a pergunta que fintechs precisam fazer deixou de ser apenas “temos uma boa tecnologia?”. A pergunta correta passou a ser: temos governança suficiente para prevenir, detectar, reagir e provar o que aconteceu?
O BACEN está elevando a régua
A atualização regulatória recente sobre capital social integralizado e patrimônio líquido mínimo reforça uma mudança importante: o regulador passou a olhar com mais atenção para a natureza da operação, as atividades efetivamente exercidas, o uso de infraestrutura tecnológica e os riscos assumidos por cada instituição.
Esse movimento tende a impactar diretamente o mercado.
Fintechs maiores devem buscar escala, robustez patrimonial e estruturas mais completas de governança. Já operações menores terão que avaliar com mais rigor sua capacidade de seguir operando de forma isolada, especialmente quando não houver capital, controles, processos e maturidade operacional compatíveis com o nível de risco da atividade.
Na prática, o setor tende a passar por uma fase de consolidação.
Algumas empresas devem se capitalizar. Outras podem buscar associação, fusão, aquisição ou modelos compartilhados de estrutura. E parte das operações pode simplesmente não resistir ao novo patamar de exigência.
Mas o ponto central não é apenas capital.
Capital é parte da discussão. A discussão maior é maturidade institucional.
O BACEN vem sinalizando que participar do sistema financeiro exige capacidade de gestão, rastreabilidade, controles internos, resposta a incidentes, segurança da informação, governança sobre terceiros e documentação adequada das decisões críticas.
Para fintechs, isso muda a lógica do crescimento. Não basta crescer rápido. Será necessário crescer com capacidade de controle.
A fraude também mudou de patamar
Nos últimos meses, o Brasil acompanhou uma sequência de ataques, desvios, incidentes cibernéticos e exposições envolvendo o ecossistema financeiro digital.
Não se trata mais de eventos isolados, nem de golpes artesanais voltados apenas ao consumidor final.
O que se observa é uma fraude mais organizada, industrializada e conectada.
As estruturas criminosas passaram a explorar diferentes camadas da operação financeira: credenciais legítimas, colaboradores aliciados, terceiros prestadores de serviço, vulnerabilidades em integrações, engenharia social massificada, contas laranja, contas dormentes, empresas de passagem, criptoativos e plataformas usadas para ocultação ou dispersão de valores.
Também houve mudança no perfil dos alvos.
As fraudes deixaram de se concentrar apenas em pessoas físicas e avançaram para MEIs, pessoas jurídicas, contas operacionais de empresas, instituições financeiras, instituições de pagamento e fornecedores conectados à cadeia financeira.
O ataque, hoje, nem sempre começa no cliente. Muitas vezes, começa no elo operacional mais frágil.
Pode estar em uma credencial mal protegida. Em um acesso excessivo. Em um fornecedor sem controle suficiente. Em um colaborador aliciado. Em uma regra de monitoramento inexistente. Em uma integração crítica sem validação adequada. Em uma resposta tardia a um comportamento atípico.
Esse é o ponto que precisa ser levado a sério: no mercado financeiro digital, uma falha aparentemente periférica pode se tornar um incidente central.

Prevenção: controle antes do dano
Prevenir fraude não é apenas contratar uma ferramenta antifraude.
A prevenção real exige conhecer a operação, mapear riscos, revisar acessos, documentar fluxos, classificar fornecedores críticos, definir responsabilidades, restringir privilégios, monitorar credenciais, validar transações sensíveis e estabelecer critérios claros para escalonamento de alertas.
Fintechs precisam saber responder, com evidência, perguntas simples:
- Quem pode acessar sistemas críticos?
- Quem aprova alterações relevantes?
- Quem monitora comportamento atípico?
- Quem responde por fornecedores estratégicos?
- Quais eventos exigem bloqueio imediato?
- Qual é a trilha de auditoria disponível?
- A empresa consegue reconstruir o incidente depois?
Se a resposta depender de memória, confiança informal ou conhecimento concentrado em poucas pessoas, o controle é frágil.
E controle frágil, em ambiente regulado, não é apenas um problema operacional. É risco regulatório, reputacional e financeiro.
Detecção: fraude moderna não espera fechamento mensal
A velocidade das fraudes exige detecção em tempo adequado.
Isso significa monitorar padrões transacionais, mudanças de comportamento, acessos fora do padrão, alteração de dispositivo, troca de IP, uso atípico de credenciais, concentração de valores, movimentações incompatíveis com o perfil da conta, tentativas de burlar limites e sinais de atuação coordenada.
Mas alerta sozinho não resolve.
Muitas instituições possuem ferramentas, dashboards e indicadores, mas não possuem processo decisório claro. O alerta aparece, mas ninguém sabe exatamente quem decide, em quanto tempo decide, com qual evidência decide e qual medida deve ser tomada.
Esse é um erro comum.
Detecção efetiva exige tecnologia, inteligência e governança. Sem processo, o alerta vira ruído. Sem evidência, a decisão fica frágil. Sem reação, a detecção perde valor.
Reação: depois do incidente, a pergunta será sobre diligência
Nenhuma empresa elimina integralmente o risco de fraude.
Por isso, a capacidade de reação é tão importante quanto a prevenção.
Quando um incidente ocorre, a instituição precisa preservar evidências, bloquear acessos, registrar linha do tempo, acionar responsáveis, avaliar deveres regulatórios, comunicar parceiros quando necessário, identificar causa raiz, mensurar impacto, reduzir reincidência e documentar todas as decisões tomadas.
Esse ponto costuma ser subestimado.
Em incidentes relevantes, a discussão raramente fica restrita à existência da fraude. A pergunta passa a ser outra: a instituição possuía controles proporcionais ao risco? Detectou o evento no tempo adequado? Agiu com diligência? Preservou evidências? Conseguiu reconstruir o ocorrido? Tinha governança sobre terceiros? A alta gestão tinha visibilidade dos riscos?
Sem documentação, a empresa perde capacidade de resposta.
E, em um mercado regulado e baseado em confiança, perder capacidade de resposta pode ser tão grave quanto o próprio prejuízo financeiro.

Governança é a nova camada de proteção
Para fintechs, confiança é ativo regulatório, comercial e reputacional.
Uma falha mal gerida pode afetar parceiros bancários, investidores, clientes, fornecedores, regulador e a continuidade de produtos estratégicos.
Por isso, prevenção, detecção e reação a fraudes não podem ser tratadas como áreas isoladas. Elas precisam integrar a governança da empresa.
O mercado financeiro digital amadureceu. O regulador elevou a régua. A criminalidade se profissionalizou. Agora, as estruturas de controle precisam acompanhar.
A ABCR atua na estruturação, revisão e fortalecimento de mecanismos de prevenção, detecção e reação a fraudes, com foco em riscos operacionais, evidenciais, contratuais e regulatórios.
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